terça-feira, 8 de abril de 2008

Evolução recente e futura do preço do petróleo: as causas

Com data de ontem, dia 7, o Samsung Economic Research Institute, da Coreia do Sul (um dos principais institutos de pesquisa económica do país), divulgou a sua publicação periódica Korea Economic Trends que, apesar do título, não se limita a divulgar informação económica sobre o país.

O principal artigo desta edição é um intitulado Causes of soaring commodity prices and prospects onde aborda as causas do crescimento dos preços das matérias primas e perspectivas para o futuro próximo.

Vejamos algumas das conclusões do autor do estudo (Lee Jee-Hoon).

Ilustrando o rápido aumento dos preços das commodities refere que o Índice Global de Preços destas publicado pelo FMI subiu a “astronomidade” de 51% entre Janeiro de 2007 e Fevereiro passado, o que colocou os preços muito acima (21%!) do que seriam se se tivesse mantido a tendência de longo prazo na evolução dos mesmos.

Responsáveis por esta subida são as evoluções dos preços do petróleo bruto e de outros produtos, como o trigo, o ferro e a soja, entre outros.

A subida verificada no preço do petróleo é, sem dúvida, a mais importante e a que mais influencia a evolução do referido índice. Entre Jan/07 e Fev/08 o petróleo (o WTI, West Texas Intermediate, que serve de referência para o cálculo do preço do petróleo de Timor Leste) aumentou 41 USD por barril.

Mas o mais relevante do estudo é que ele procura determinar a importância relativa de vários factores nesta subida chegando à conclusão que 40,3% dela se deve à presença de especuladores de bolsa no mercado do petróleo. Tal presença deve-se ao facto de se terem “refugiado” nos mercados das matérias primas e, em particular, no do petróleo muitos dos investidores financeiros que actuavam nas bolsas de valores (acções, títulos de tesouro, etc) e que, nomeadamente devido às dificuldades que os mercados financeiros atravessam e à queda significativa da taxa de juro nos Estados Unidos, decidiram procurar melhor rentabilidade para os seus investimentos apostando noutros mercados menos “usuais”.

A somar-se a esta influência da especulação --- os mais críticos perguntar-se-ão mesmo "mas que capitalismo é este que se baseia na especulação?!..." --- há ainda a do risco geoestratégico (quase 40%), incluindo-se nele toda a incerteza sobre a evolução futura da economia mundial resultante da situação no Médio Oriente (Iraque, Irão, Tuquia vs curdos), na Nigéria (movimentos de guerrilha que atacam a extracção de petróleo e seu encaminhamento para exportação) e na própria Venezuela de Chavez.

Dois outros factores que costumam ser referidos são a contínua depreciação do USD e, naturalmente, o desequilíbrio entre a oferta e a procura de petróleo. Note-se, porém que esta última será responsável apenas por cerca de 1,8% da subida do preço do petróleo desde o início de 2007 enquanto que a primeira causa (desvalorização do USD) “responde” por 4,5%.

Tendo como pano de fundo a evolução que se tem verificado no preço do petróleo bruto e as expectativas em relação à evolução futura dos vários factores determinantes da sua evolução o SERI espera que em 2006 se verifique, face a 2007, uma subida de 24% no conjunto do ano. Porém, no primeiro semestre espera-se que se verifique um preço médio ligeiramente superior ao do segundo à medida que, como se espera, forem “acalmando” as expectativas “irracionais” quanto à evolução da economia e dos mercados financeiros.

domingo, 6 de abril de 2008

"Desculpe o mau jeito da cozinha!..."

Once upon a time, estava eu almoçando no (defunto...) restaurante "Matchedje", em Maputo --- o então melhor restaurante da cidade ou não fosse o da FRELIMO e das Forças Armadas, com direito a chefe de mesa com libré e tudo ---, o cliente que estava sentado à minha frente pediu o "prato do dia", "carne à transmontana", assim uma espécie de feijoada com maningue carne e enchidos.
Quando o seu prato chegou ele olhou para a comida e viu que era um monte preto --- apesar de o feijão ser encarnado. Chamou o chefe de mesa e disse-lhe entre espantado e revoltado: "Mas... a comida está queimada!... Eu não vou comer isto!". Aí o chefe, entre encabulado e senhor da sua chefia, respondeu-lhe calmamente e com a firmeza de um encolher de ombros mais imaginado que real: "Pois está! Desculpe o mau jeito da cozinha e se quiser coma, se não quiser não coma!..."
Nunca mais me esqueci desta cena e já a contei vezes sem conta. Aquele "desculpe o mau jeito da cozinha" não me sai dos ouvidos. E aplica-se a tantas circunstâncias...

Vem isto a propósito de declarações recentes de Xanana Gusmão. De acordo com a imprensa (LUSA) terão sido mais ou menos assim:

“A liderança timorense, onde me incluo, não esteve à altura de resolver os problemas. (...) Andámos um bocado a brincar e a pensar que as coisas se resolvem amigavelmente”.

Só faltou acrescentar o acima citado "desculpe o mau jeito da cozinha"...
Isto é: andou meio-mundo a dizer isto mesmo durante tempos e tempos e só agora se apercebeu de que "andaram um bocado a brincar"? Não acha que levou demasiado tempo a perceber isso? E será que percebeu mesmo? Se percebeu para quê aquela cena do cházinho? Não acha que já tem demasiados cabelos brancos e demasiadas responsabilidades para "brincar" com coisas sérias? Então isso são coisas com que se "brinque"? E o que espera que os outros façam? Que desculpem o cozinheiro e o chefe de mesa e comam a comida queimada por "mau jeito da cozinha"? E quem estava na cozinha e deixou queimar tudo --- em sentido absoluto e não apenas figurado ---, quem?!...
O que vale é que eu não tenho de desculpar ou deixar de desculpar...
Quem tem de o fazer que se pronuncie na devida ocasião...
Ele há com cada um!... "Desculpe o mau jeito da cozinha!...". Só visto!...

sábado, 5 de abril de 2008

"Caso Esmeralda": a culpa é dos Tribunais, claro!...

De notícia a propósito da tentativa frustrada de "entrega" da criança ao pai biológico:

"Após um processo oficial de averiguação de paternidade, Baltazar Nunes perfilhou a filha quando ela tinha um ano e desde então tem tentado obter no tribunal a sua guarda. "

Este processo está mal desde o início e a principal culpa não é de nenhum dos mais directos intervenientes sendo certo, porém, que a única verdadeiramente prejudicada deste "romance" vai ser a criança.
Mas tudo é culpa do sistema judicial que não conseguiu ainda, em cinco anos, resolver algo que, dadas as circunstâncias, deveria ter sido resolvido em 5 dias ou, no máximo dos máximos, em 5 meses! No mínimo dos mínimos e se havia uma disputa de "paternidade afectiva", a criança deveria ter sido logo entregue ao pai biológico e depois os tribunais decidiriam o que fazer... Se tivesse sido assim alguém iria agora pedir que a filha fosse entregue ao sargento?!... O total falhanço do Estado e da justiça (escrevo com minúscula de propósito...) portugueses é que provocou o problema.
Toda (ou quase) a gente "atira pedras" ao pai biológico e loa o pai adoptivo mas... terão razão? Claro que compreendo o desejo deste último preservar a companhia da "filha" mas não tenhamos dúvidas de uma coisa: este processo só se arrastou tanto tempo porque ele se marimbou nos interesses da miúda e colocou os seus sentimentos acima dos dela --- e o sistema judicial permitiu que tal acontecesse!
Experimentem colocar-se na posição do pai biológico: passado algum tempo da criança ter nascido sabe e admite que é o pai e tenta, desde então , obter aguarda da filha. Nessa altura esta tinha apenas um ano e quaisquer "mossas" psicológicas que a alteração da sua situação pudessem causar seriam, creio, mínimas e facilmente ultrapassáveis.
É evidente que passados 5 anos a coisa é muito diferente e hoje, se a criança ficar com o pai biológico, vão ficar traumas, certamente. Mas o problema é que está tudo errado desde o início e a lei parece estar a proteger quem não devia...
De facto, é evidente que os "pais de afecto" obtiveram a guarda da criança de forma totalmente ilegal! "Torpedearam" a legislação sobre adopção e agora querem que os Tribunais façam com que "o crime compense" invocando os afectos entretanto criados pela criança. Isto é de uma desonestidade total!

O problema acaba por surgir só por causa da lentidão com que a justiça é feita em Portugal. Eu, se fosse ao pai biológico, punha o Estado português em tribunal por "danos morais" provocados! À criança, em primeiro lugar, mas também a todos os outros envolvidos. O azar da criança é que foi tratada como uma "coisa" que tanto faz que seja entregue num momento como 5 ou 7 anos depois ao seu legítimo "proprietário". Só que neste caso a "coisa" tem cabeça e coração...

Espero que, no mínimo, tudo isto sirva para alterar os procedimentos dos Tribunais em situações deste tipo, que envolvem pessoas. No mínimo a criança deveria ter sido IMEDIATAMENTE entregue ao progenitor em vez de deixarem a situação prolongar-se como se prolongou.
Se a indemnização a pedir ao Estado for de 200 milhões de euros ele percebe... Menos do que isso são "trocos"...

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Pois é!... A vida não 'tá fácil não...

É notório que a inflação em Timor Leste, que tinha sido (taxas homólogas de Dezembro de cada ano) de 1,8% em 2004, 0,9% em 2005 e 7,3% em 2006, não tem dado descanso nos últimos tempos, particularmente durante todo o ano de 2007 e, mais em particular ainda, em Fevereiro/07 e nos meses que se seguiram à "crise do arroz" que então se viveu no país (nesse mês a taxa de inflação relativamente ao mesmo mês de 2006 foi... 17,9%).
Em Dezembro de 2007 a taxa (face a Dez/06) foi de 8,6%, mais 1,3 pontos percentuais que em 2006.

Isto é: parece que a taxa de subida dos preços não quer abrandar. Pior, o panorama em relação ao futuro a curto/médio prazo não parece ser o melhor.
Na verdade haverá (pelo menos) três factos que poderão contribuir para isso.
O primeiro é o de que o banco central, por não ter autonomia de política monetária devido ao facto de se utilizar o dólar americano como moeda nacional, pouco pode fazer para controlar as pressões inflacionistas que se sentem na economia.
O segundo é o de que a contínua desvalorização do USD tende a exercer alguma pressão para o encarecimento de (pelo menos parte) das importações --- e sabe-se que Timor importa que se farta...
O terceiro e último que queremos abordar aqui é que as perspectivas do mercado internacional de uma das principais importações do país e que entra com uma percentagem importante no cálculo do Índice de Preços no Consumidor --- referimo-nos ao arroz --- não são as melhores. A figura abaixo ilustra o rápido crescimento dos preços do arroz no mercado internacional.

A FAO, a organização do sistema das Nações Unidas para a alimentação e agricultura calcula que o preço médio do arroz em 2007 tenha subido cerca de 17%, com parte mais significativa da subida a ocorrer durante a segunda metade do ano.
Para 2008 as perspectivas não são muito melhores. De facto e segundo ela espera-se que nos próximos meses se verifiquem novas subidas dos preços porque os níveis de stocks mundiais são relativamente reduzidos e porque vários países exportadores, face à situação, estão a impor restrições às suas exportações do cereal, tudo exercendo pressões no sentido da alta do preço.
Ora os "cereais, raízes e seus produtos" --- em que a "parte de leão" é constituida por arroz --- têm um peso de 13,1% no índice de preços no consumidor em Timor Leste. A pressão para o aumento do preço do cereal vai, pois e quase inevitavelmente, repercutir-se na taxa global de inflação. As subidas de salários na função pública e (agora) o significativo aumento das "transferências" para determinados grupos da população vão, quase de certeza, "ajudar à festa".
A ver vamos onde vamos parar... Com o preço do petróleo a ajudar, não sei não... Vamos bater novo record? Eu se fosse a vocês ia pondo as barbas de molho...

He had a dream that day!...

Faz hoje 40 anos que assassinaram Martin Luther King. He had a dream (oiça aqui o seu mais famoso discurso).
O discurso termina assim:

"one day (...) in Alabama ["all over the world", corrijo eu...] little black boys and black girls will be able to join hands with little white boys and white girls like sisters and brothers. I have a dream today".

Um dia [em todo o mundo] rapazes e raparigas negras serão capazes de dar as suas mãos a rapazes e raparigas brancas como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje!

Amen!

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Cadê os direitos de autor, meu?!...

Quantas vezes já terá sido passado nas TVs nacionais o filme feito por um aluno da "Carolina Michaelis" sobre o incidente que se passou na sala de aula por causa do telemóvel da moçoila sua colega?
Já perdi a conta... As TVs foram um autêntico instrumento de lavagem ao cérebro de todos nós desde que o caso aconteceu e usaram aquele filme vezes sem conta. Uma vergonha! O comportamento da moça, o do "cineasta" e, não tenhamos medo de o afirmar, também o das televisões que usaram e abusaram do incidente como se não houvesse mais nada de relevante a ocorrer em Portugal naqueles dias.
A sede de "sangue" dos nossos jornalistas e, principalmente, dos directores dos noticiários das TVs é caso para uma análise psiquiátrica! Dr. Sampaio (não é esse! É o irmão!): vai uma ajuda na interpretação do comportamento desta gente?!... Temo que nem o Freud explique...
E o que acho curioso é que ninguém, que eu saiba, se tenha preocupado em pagar direitos de autor ao "cineasta"... O puto podia estar rico e assim o que ganhou foi apenas uma transferência de escola e, muito provavelmente, dois pares de chapadas do paizinho!
Uma desgraça nunca vem só: prejudicado e não pago!

terça-feira, 1 de abril de 2008

Desculpa, João, mas não é bem assim...

Notícia da LUSA transcrevendo [espero que fielmente] declarações de João Gomes Cravinho, o SENEC prtuguês, diz como segue:

"Díli, 01 Abr (Lusa) - Se a Língua Portuguesa "falhar" em Timor-Leste "será por falta de recursos e acontecerá o mesmo noutros países", afirmou hoje o titular da pasta da Cooperação à Agência Lusa.
"Temos um desafio pela frente, um desafio que tem que ser resolvido no próximo par de meses, que é encontrarmos os recursos necessários para estarmos à altura das nossas responsabilidades", declarou, em Díli, o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação português.
João Gomes Cravinho afirmou que Portugal "tem que saber encontrar os meios" para apoiar o ensino do Português.
"Caso contrário, estaremos a falhar em relação a algo que é de longo-prazo e é importante para a projecção de Portugal no mundo e para a consolidação de Timor-Leste como Estado independente", declarou João Gomes Cravinho à Lusa."


Primeiro: não sei o que é que o "coiso" tem a ver com as calças: porque é que um eventual falhanço do crescente uso do Português em Timor Leste fará com que "acontecerá o mesmo noutros países". E que países serão esses, Santo Deus? O Burkina Faso? O Iraque? Algum dos "países lusófonos"? O Brasil? A Guiné Bissau? Explica-te, homem!...

E essa de um desafio que tem de ser resolvido no próximo par de meses quer dizer o quê? Caramba, homem! Até me assustas! Até parece que te fizeram algum ultimato sobre o assunto... Será? Huuummmm!... Não acredito. E apesar de o João Câncio (Ministro timorense da Educação) ter tido uma parte da sua formação na Austrália ele é um exímio falante de Português, um homem educado e nada propenso a ultimatos e já tem reafirmado várias vezes que a opção pelo Português como língua oficial é imutável.
Então o que se terá passado? Aqui há gato... Desembucha, homem!...

Além disso não gostei, sinceramente, dessa "tirada" de que o vingar do Português em Timor é importante para a projecção de Portugal no Mundo. Desculpa lá mas acho que não aquece nem arrefece para a dita projecção. Além disso o critério essencial para mim não pode ser esse. Terá de ser o da utilidade para os timorenses. Por isso estou mais de acordo com o teu segundo argumento. Era bom se todos nos compenetrássemos que o problema da língua é (quase) exclusivamente timorense. Eles que resolvam!

Mas de qualquer maneira entendamo-nos numa coisa: se, coisa em que não acredito pelo que oiço nas ruas de Dili e vejo nas próprias estatísticas (o de que há, hoje, muito mais pessoas a falar um mínimo de português), o desenvolvimento do uso do Português em Timor falhar não me sinto um "falhado" por causa disso nem acho que Portugal se deva sentir como tendo falhado.
Afinal de contas Moçambique e Angola (e os outros PALOP) não tiveram nem um "cheirinho" do apoio que temos dado a Timor neste domínio e no entanto eles aí estão, falando Português pelos cotovelos!
Porquê? Sabes, não sabes? Porque os seus dirigentes não andaram com "meias tintas" e paninhos quentes na sua opção. Tomada a decisão, foram em frente na sua implementação sem hesitações. Ser capaz de decidir e implementar as decisões tem destas vantagens...