quarta-feira, 26 de março de 2008

Cooperação portuguesa com Timor Leste

Num comunicado de hoje da Embaixada de Portugal em Timor Leste pode ler-se o seguinte a propósito da reunião de doadores deste país a decorrer entre 27 (amanhã) e 29 deste mês:

"Entre 1999 e 2007, Portugal contribuiu com 470 milhões de dólares para Timor-Leste sendo um dos principais parceiros de desenvolvimento."

À taxa de câmbio actual isto equivale a cerca de 315 milhões de euros (mais ou menos 63 milhões de 'contos' antigos; uma média de 8 milhões de 'contos' = 40 milhões de euros por ano).

Veja aqui uma avaliação da cooperação portuguesa (em geral e não apenas com Timor Leste) feita pelo CAD-Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE em 2006. Veja nas páginas 63 a 70 uma análise específica da cooperação com Timor Leste.

Que avaliação nós fazemos? Avaliar a cooperação não é coisa fácil e não temos meios para a fazer mas "à vista desarmada" parece-nos que, como seria de esperar e como acontece com tantas outras cooperações internacionais, há casos de maior sucesso e outros de menor sucesso, senão mesmo de rotundo falhanço. Não cremos, sinceramente, que haja muitos exemplos destes últimos --- o que já não é mau...
Por outro lado, há que ter em consideração dois aspectos: o primeiro é o de que a cooperação, principalmente quando é bilateral, tem de ser vista como uma relação "bi-unívoca" que é: o seu maior ou menor sucesso depende do doador mas também depende, e muito, do beneficiário, o qual tende, muitas vezes, a aceitar tudo o que lhe dão só porque "não se paga!... Não se paga!...", esquecendo-se que ele deve ter uma palavra mais activa a dizer e a sugerir formas alternativas de utilização dos recursos (sempre escassos face à 'montanha' de coisas que há para fazer). E talvez também porque "não se paga, não se paga" tende a não tirar todo o proveito que poderia tirar do que lhe dão... Falta de capacidade para o fazer? Displicência? Talvez de tudo um pouco.
O segundo aspecto é o de que muitas das acções de cooperação de hoje só vêm os seus verdadeiros frutos amanhã (i.e, daqui a anos e anos...). É o caso de duas áreas em que Portugal tem estado mais envolvido: a educação e a justiça -- e, genericamente, o aumento da utilização da língua portuguesa. Por isso uma verdadeira avaliação deste tipo de cooperação só pode ser feita a MUITO longo prazo. As indicações do médio prazo são, no entanto, muito positivas quanto ao resultado dessa cooperação.
Sugestões de novas áreas em que apostar decididamente no futuro, mais do que foi feito no passado (desde que as autoridades timorenses tenham capacidade de resposta --- do que, por vezes, duvidamos...) ?
Uma parece fundamental: a do desenvolvimento rural, nomeadamente a reflorestação do país e a renovação, "urgentissíssima", dos cafezais de Timor Leste. O Brasil pode ajudar mas outros, da região, também poderão dar uma mãozinha (ou esqueceram-se que o Vietname é hoje o segundo maior exportador mundial de café?).
Outra área? A do planeamento urbano de cidades como Dili e Baucau. Há trabalho feito nesta área pela Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa e que "ficou na gaveta" por causa da crise política iniciada no princípio de 2006. Aparentemente só faltava a assinatura do "baleado"... "Desgavetem-no"!...
Lembramos que projectos deste tipo têm uma vantagem muito grande: vão directamente ao encontro das necessidades das pessoas e permitem beneficiar os seus níveis e qualidade de vida. Há coisa melhor que isto como objectivo da cooperação?!...

Mas não tenhamos dúvidas: tem havido também muito desperdício que poderia ter sido evitado. Mas não é hora de lembrar as coisas más... "Pero que las hay, las hay", como as bruxas espanholas...

4 comentários:

José Gomes disse...

Já era altura de Timor começar a ser falado por coisas positivas... e esta análise é uma ajuda.
JG

Anónimo disse...

De acordo com o Gomes. O que é perturbador é a falta de iniciativa do governo de TL, se bem que na questão dos peticionários o horizonte é promissor.
Alfredo
Br

Anónimo disse...

É difícil avaliar projectos de cooperação para o desenvolvimento sustentável, mas sem resultados intermédios é difícil motivar os doadores de bens materiais e os cooperantes voluntários :-)

José Gomes disse...

Voltando ainda ao meu comentário acima e depois de reler a vida de Ruy Cinatti, este já apontava (e lutou por isso!)o desenvolvimento rural e a renovação e reflorestação de Timor Leste. Então, meus amigos, braços à obra!!!
José Gomes